O turismo foi construído sobre uma lógica simples: cada viagem era uma nova compra, uma nova negociação e um novo gasto. O futuro das férias parece caminhar em outra direção: mais previsibilidade, mais eficiência no uso de recursos e maior foco nas experiências que realmente importam.
As férias ocupam um lugar especial na vida das pessoas.
Elas representam:
Descanso.
Tempo em família.
Natureza.
Reconexão.
Memórias.
Bem-estar.
Mas, economicamente, elas também se tornaram mais complexas.
Nos últimos anos, as famílias passaram a conviver com:
Aumento dos custos de hospedagem.
Volatilidade das passagens aéreas.
Inflação de serviços turísticos.
Maior pressão sobre o orçamento doméstico.
Segundo a World Tourism Organization (ONU Turismo), o setor de viagens vem enfrentando transformações estruturais decorrentes da recuperação pós-pandemia, mudanças nos padrões de consumo e aumento dos custos operacionais.
Ao mesmo tempo, as pessoas continuam atribuindo enorme valor às viagens.
Essa combinação de desejo elevado e custos crescentes está redefinindo a economia do lazer.
O turismo está entrando em uma era de maior previsibilidade
Em economia, previsibilidade possui valor.
Segundo a Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD), consumidores atribuem valor crescente à redução de incertezas financeiras, especialmente em despesas recorrentes e de longo prazo.
As férias tradicionalmente possuem diversos elementos de incerteza:
Quanto custará a hospedagem no próximo ano?
As passagens estarão mais caras?
Haverá disponibilidade?
Os preços subirão acima da inflação?
Essa imprevisibilidade gera custos financeiros e psicológicos.
Por essa razão, cresce o interesse por modelos de lazer que permitam:
Maior planejamento.
Maior estabilidade.
Maior previsibilidade de acesso.
A previsibilidade está se tornando um atributo econômico relevante no turismo.
O compartilhamento é uma resposta ao problema da eficiência
Existe uma característica econômica pouco discutida das férias:
Muitos ativos de lazer são utilizados apenas uma pequena parte do tempo.
Segundas residências permanecem vazias durante grande parte do ano.
Infraestruturas de lazer apresentam forte sazonalidade.
Equipamentos e serviços possuem períodos de elevada ociosidade.
Segundo a PwC, a economia compartilhada expandiu-se globalmente justamente porque aumenta a utilização dos ativos e reduz ineficiências relacionadas à ociosidade.
O compartilhamento não surgiu apenas por razões culturais.
Ele possui uma lógica econômica robusta:
Maior taxa de utilização.
Menor desperdício de capital.
Maior eficiência de uso.
Melhor aproveitamento dos recursos disponíveis.
Essa lógica já transformou:
Mobilidade.
Entretenimento.
Tecnologia.
Hospedagem.
E começa a influenciar também o mercado de férias e segundas residências.
Curiosidade: as pessoas não querem menos viagens. Querem mais experiências por unidade de gasto
Pesquisas da McKinsey & Company e da Deloitte mostram que os consumidores estão cada vez mais preocupados em maximizar o valor obtido por cada real gasto.
Em termos econômicos, trata-se da busca pela:
Maximização da utilidade.
As famílias procuram:
Mais qualidade.
Mais experiências.
Maior previsibilidade.
Maior eficiência.
Não necessariamente querem gastar menos.
Querem gastar melhor.
Esse é um ponto importante.
O consumidor moderno não está abandonando o lazer.
Está se tornando mais sofisticado em sua forma de consumi-lo.
O verdadeiro produto do turismo são as experiências
Segundo os psicólogos Leaf Van Boven e Thomas Gilovich, experiências tendem a produzir maior satisfação duradoura do que muitos bens materiais.
As viagens possuem características únicas:
Produzem memórias.
Fortalecem relações.
Geram significado.
Contribuem para a construção da identidade familiar.
Por isso, o turismo possui um valor econômico que vai além da hospedagem ou do transporte.
O que as pessoas compram são experiências.
E o valor percebido dessas experiências continua extremamente elevado.
O turismo de bem-estar está acelerando essa transformação
Segundo o Global Wellness Institute, o turismo de bem-estar é um dos segmentos de crescimento mais rápido da economia global do bem-estar, movimentando centenas de bilhões de dólares anualmente.
As pessoas estão buscando:
Silêncio.
Natureza.
Desaceleração.
Conexão.
Experiências significativas.
Isso ajuda a explicar uma mudança importante:
As férias estão deixando de ser apenas períodos de descanso.
Estão se tornando ferramentas de recuperação física, emocional e relacional.
Em outras palavras:
As experiências estão se tornando mais valiosas.
E, consequentemente, o acesso a elas também.
O futuro das férias parece combinar três grandes tendências econômicas
Previsibilidade
Redução da exposição à volatilidade de preços.
Maior capacidade de planejamento.
Menor incerteza financeira.
Continuidade de acesso.
Segundo a OECD, a previsibilidade é um dos atributos mais valorizados em decisões de consumo de longo prazo.
Compartilhamento
Maior eficiência de uso.
Redução de capital ocioso.
Melhor aproveitamento de ativos.
Segundo a PwC, a economia compartilhada cresce justamente por sua capacidade de aumentar a produtividade dos recursos existentes.
Experiências
Valorização crescente de:
Bem-estar.
Natureza.
Conexões.
Tempo de qualidade.
Memórias.
Segundo pesquisas de Van Boven e Gilovich, experiências produzem benefícios subjetivos mais duradouros do que muitos bens materiais.
Curiosidade: o consumidor está migrando da propriedade para a continuidade
Segundo o economista e sociólogo Jeremy Rifkin, a economia do século XXI está cada vez mais organizada em torno do acesso contínuo a benefícios, e não necessariamente da propriedade integral de ativos.
O consumidor moderno procura:
Continuidade.
Facilidade.
Previsibilidade.
Eficiência.
Experiências recorrentes.
Esse comportamento está transformando praticamente todos os setores econômicos.
Não há razões para acreditar que o turismo permanecerá imune a essa mudança.
O futuro das férias: previsibilidade, compartilhamento e experiências
Talvez esta seja uma das maiores transformações da economia do lazer.
As famílias continuam desejando:
O mar.
As férias.
A natureza.
O descanso.
As memórias.
Nada disso mudou.
O que mudou foi a maneira de pensar economicamente essas experiências.
Os consumidores passaram a valorizar:
Maior previsibilidade financeira.
Modelos mais eficientes de utilização de recursos.
Maior continuidade de acesso.
Experiências mais significativas.
O turismo parece caminhar para um modelo menos baseado em transações isoladas e mais orientado por relações de longo prazo com o lazer.
Porque, no fim das contas, as pessoas não querem apenas comprar uma viagem.
Elas querem saber que continuarão tendo acesso, ano após ano, às experiências que tornam a vida mais rica em tempo, conexão e significado.
Talvez o futuro das férias seja justamente este:
Menos incerteza.
Menos ociosidade.
Mais previsibilidade.
Mais compartilhamento.
Mais experiências.
Referências
- World Tourism Organization (ONU Turismo). Relatórios sobre tendências globais do turismo e comportamento do viajante.
- Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). Estudos sobre previsibilidade financeira, comportamento do consumidor e decisões de longo prazo.
- PwC. Relatórios sobre economia compartilhada e eficiência de utilização de ativos.
- McKinsey & Company. Pesquisas sobre maximização de valor, comportamento do consumidor e novos modelos de consumo.
- Deloitte. Estudos sobre experiências, previsibilidade financeira e economia de acesso.
- Leaf Van Boven; Thomas Gilovich. “To Do or To Have? That Is the Question.” Journal of Personality and Social Psychology, v. 85, n. 6, 2003.
- Global Wellness Institute. Relatórios sobre economia do bem-estar e turismo wellness.
- Jeremy Rifkin. The Age of Access. Penguin Putnam.
- Revista científica Tourism Management – Estudos sobre comportamento do viajante, economia do lazer e tendências de hospitalidade.
- Revista científica Journal of Consumer Research – Pesquisas sobre consumo experiencial e valor percebido.
