O fim da casa de praia como símbolo de status

Possuir uma casa de praia era um dos maiores símbolos de sucesso econômico no Brasil. Hoje, uma mudança silenciosa está acontecendo: para um número crescente de famílias, o verdadeiro valor não está mais em possuir um imóvel pouco utilizado, mas em ter acesso inteligente ao tempo, às experiências e à qualidade de vida.

Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, a segunda residência ocupava um lugar especial no imaginário das famílias brasileiras.

Ter uma casa na praia significava:

Conquista.

Estabilidade financeira.

Ascensão social.

Patrimônio.

Prestígio.

Era uma demonstração visível de sucesso.

Em um contexto de poucas alternativas de lazer e de um mercado imobiliário menos sofisticado, a propriedade da segunda residência representava uma forma de diferenciação social.

Segundo pesquisas da Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre formação patrimonial e comportamento econômico das famílias brasileiras, o imóvel sempre ocupou posição central como símbolo de segurança e realização financeira.

Mas os símbolos econômicos não são permanentes.

Eles mudam conforme a sociedade muda.

E é exatamente isso que está acontecendo.

O conceito de status está sendo redefinido

Os sociólogos e economistas há muito observam que os símbolos de prestígio se transformam ao longo do tempo.

O economista e sociólogo Thorstein Veblen, em sua obra clássica The Theory of the Leisure Class, mostrou que o consumo frequentemente desempenha uma função de sinalização social.

As pessoas não consomem apenas pela utilidade.

Também consomem para comunicar valores, identidade e posição social.

Por muito tempo, a casa de praia cumpriu esse papel.

Hoje, porém, a própria definição de sucesso está mudando.

Pesquisas da McKinsey & Company e da Deloitte mostram que consumidores mais jovens e famílias de renda média e alta passaram a valorizar cada vez mais:

Experiências.

Flexibilidade.

Tempo livre.

Bem-estar.

Qualidade de vida.

Propósito.

O símbolo deixou de ser apenas a posse.

Passou a ser a capacidade de viver bem.

O problema econômico da segunda residência tornou-se mais visível

Uma segunda residência possui inúmeros benefícios emocionais.

Mas também possui características financeiras específicas.

Segundo estudos da revista científica Journal of Property Research e pesquisas da Urban Land Institute (ULI), imóveis de uso sazonal frequentemente apresentam:

Elevado capital imobilizado.

Custos fixos permanentes.

Baixa taxa de utilização.

Despesas recorrentes de manutenção.

Custos de oportunidade.

Em termos econômicos, trata-se de um ativo de uso intermitente.

Essa característica não era amplamente questionada no passado.

Hoje, consumidores estão mais atentos à relação entre:

Capital investido.

Benefício efetivamente utilizado.

Eficiência de uso.

Curiosidade: a riqueza moderna está se tornando menos visível

Segundo pesquisas do economista Thomas J. Stanley, autor de The Millionaire Next Door, muitas famílias de alta renda passaram a evitar padrões de consumo excessivamente orientados pela demonstração de patrimônio.

A riqueza contemporânea tende a ser:

Mais discreta.

Mais funcional.

Mais voltada à liberdade de escolhas.

Mais associada à qualidade de vida.

Mais relacionada ao controle do tempo.

Em outras palavras:

O prestígio está migrando do patrimônio exibido para a autonomia e para o bem-estar.

O tempo está se tornando um recurso mais valioso que muitos ativos

Segundo a Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD), a percepção de escassez de tempo é uma das características marcantes das sociedades contemporâneas.

As famílias sentem que:

Possuem menos tempo livre.

Enfrentam maior pressão profissional.

Precisam equilibrar múltiplas responsabilidades.

Nesse contexto, a qualidade do tempo disponível passou a possuir enorme valor econômico.

O consumidor moderno está menos interessado em acumular ativos que demandam atenção constante e mais interessado em acessar experiências que ampliem:

Bem-estar.

Convivência.

Recuperação mental.

Qualidade de vida.

O novo indicador de sucesso não é apenas o que se possui.

É como se vive.

A economia da experiência está mudando o conceito de patrimônio

Pesquisas dos psicólogos Leaf Van Boven e Thomas Gilovich demonstram que experiências tendem a produzir níveis mais duradouros de satisfação do que muitos bens materiais.

As famílias estão priorizando:

Viagens.

Tempo de qualidade.

Natureza.

Conexão humana.

Memórias.

Segundo o Journal of Consumer Research, o consumo experiencial possui forte relação com bem-estar subjetivo e percepção de realização pessoal.

Isso ajuda a explicar por que o valor simbólico de muitos ativos está sendo reavaliado.

O foco deixou de ser apenas possuir.

Passou a ser viver.

Curiosidade: o mercado de luxo também está mudando

Pesquisas da consultoria Bain & Company mostram que consumidores de alta renda estão direcionando uma parcela crescente de seus gastos para:

Viagens transformadoras.

Experiências exclusivas.

Bem-estar.

Natureza.

Hospitalidade diferenciada.

Em diversas partes do mundo, o consumo de experiências cresce mais rapidamente do que determinadas categorias de bens físicos.

O prestígio está migrando.

Menos associado à acumulação.

Mais associado à capacidade de viver experiências de alta qualidade.

A casa de praia não está desaparecendo. Seu significado está mudando.

O sonho da segunda residência continua vivo.

As pessoas continuam desejando:

O mar.

A natureza.

O descanso.

O convívio familiar.

Um lugar de pertencimento.

Nada disso mudou.

O que mudou foi a maneira de interpretar economicamente esse sonho.

As famílias começaram a fazer novas perguntas:

Quanto desse imóvel realmente utilizo?

Qual é seu custo total de manutenção?

Quanto capital permanece imobilizado?

Existe uma maneira mais eficiente de viver as mesmas experiências?

Essas perguntas simplesmente não eram feitas com a mesma intensidade algumas décadas atrás.

Hoje, elas fazem parte das decisões de consumo.

O fim da casa de praia como símbolo de status

Talvez não estejamos assistindo ao fim da casa de praia.

Talvez estejamos assistindo ao fim de uma determinada ideia de status.

Durante décadas, o prestígio estava associado à posse integral de determinados ativos.

Hoje, uma nova lógica começa a emergir.

As pessoas estão valorizando:

Tempo.

Experiências.

Bem-estar.

Flexibilidade.

Qualidade de vida.

Conexão.

Eficiência.

O que comunica sucesso está mudando.

Talvez a verdadeira prosperidade contemporânea não seja possuir um imóvel que permanece vazio durante grande parte do ano.

Talvez seja possuir liberdade para viver mais experiências, ter mais tempo de qualidade e acessar aquilo que realmente importa para a vida.

Porque, no fim das contas, as pessoas nunca sonharam com paredes.

Sonharam com o que essas paredes tornavam possível:

As férias com os filhos.

As conversas sem pressa.

O nascer do sol perto do mar.

As memórias que permanecem.

E talvez seja exatamente esse o novo significado do sucesso:

Não acumular mais ativos.

Mas criar mais momentos que valham a pena ser lembrados.

Referências

  • Fundação Getulio Vargas (FGV). Estudos sobre formação patrimonial e comportamento econômico das famílias brasileiras.
  • Thorstein Veblen. The Theory of the Leisure Class. Macmillan.
  • McKinsey & Company. Pesquisas sobre mudanças de comportamento do consumidor e economia da experiência.
  • Deloitte. Relatórios sobre novas prioridades de consumo, bem-estar e qualidade de vida.
  • Urban Land Institute (ULI). Estudos sobre segundas residências e ativos de lazer.
  • Thomas J. Stanley. The Millionaire Next Door. Longstreet Press.
  • Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). Estudos sobre qualidade de vida e uso do tempo.
  • Leaf Van Boven; Thomas Gilovich. “To Do or To Have? That Is the Question.” Journal of Personality and Social Psychology, v. 85, n. 6, 2003.
  • Revista científica Journal of Consumer Research – Estudos sobre consumo experiencial e bem-estar subjetivo.
  • Bain & Company. Relatórios globais sobre consumo de experiências e mudanças no comportamento de consumidores de alta renda.